Hertz Dias, pré-candidato do PSTU, declara que Brasil vive ditadura e defende revolução socialista

O rapper e professor de História Hertz Dias, pré-candidato à Presidência da República pelo PSTU, lançou sua candidatura com um discurso contundente, afirmando que o Brasil não vive uma democracia plena, mas sim uma ditadura da burguesia e do capital.

Segundo Dias, o atual sistema eleitoral serve apenas para legitimar a exploração, onde os trabalhadores são forçados a escolher entre seus “carrascos” a cada dois anos. Sua campanha, definida como uma “tribuna política”, tem como objetivo denunciar a “podridão do sistema” e defender a necessidade de uma revolução socialista.

As declarações foram feitas em entrevistas e podcasts, onde o maranhense de 55 anos detalhou sua visão de mundo, moldada pela mistura de rap, questões raciais e marxismo revolucionário, conforme informações divulgadas pelo PSTU.

A Estratégia de Hertz Dias: Usar Eleições como Tribuna Política

Hertz Dias não vê as eleições como um caminho para o poder, mas sim como uma plataforma para disseminar suas ideias revolucionárias. Sua estratégia é utilizar o espaço eleitoral para expor o que ele chama de “democracia dos ricos” e a exploração imposta pelo capitalismo. Ele acredita que o sistema atual oferece aos trabalhadores apenas a ilusão de escolha, sem a possibilidade de governar ou tomar decisões reais.

“Entrar na eleição para mostrar que eleições não resolvem nada”, é a essência de sua missão. O objetivo não é ser “eleitoreiro”, mas sim usar a campanha como um megafone para denunciar as falhas e a injustiça do sistema capitalista. Para ele, o Brasil está longe de ser uma “festa da democracia”, vivendo, na verdade, sob uma ditadura imposta pela burguesia e pelo capital.

Trajetória Política e o PSTU: Um Histórico de Lutas Marginais

Apesar de sua nova pré-candidatura presidencial, Hertz Dias não é novato na política. O professor de História da rede pública em São Luís já disputou diversos cargos pelo PSTU ao longo dos anos, sempre com resultados eleitorais modestos, característicos dos candidatos do partido. O Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU), fundado nos anos 90 a partir de uma dissidência do PT, é conhecido por sua linha trotskista e por não ter representantes eleitos em nenhum nível da administração pública.

Em 2018, Hertz concorreu como vice-presidente na chapa de Vera Lúcia, obtendo 0,05% dos votos. Em 2020, disputou a prefeitura de São Luís, alcançando 0,42%. Já em 2022, candidatou-se ao governo do Maranhão, com 0,15% dos votos. Esses números refletem o desempenho histórico do PSTU em eleições, onde o partido utiliza o processo eleitoral mais como ferramenta de agitação e propaganda de suas ideias revolucionárias do que como busca por representação política direta.

O PSTU e o Fundo Eleitoral: Financiamento e Agitação Socialista

O PSTU, mesmo sem representação eleita, tem acesso a uma parcela do Fundo Eleitoral, conhecido como “fundão”, simplesmente por sua existência formal no Tribunal Superior Eleitoral. Em 2024, o partido recebeu aproximadamente R$ 3,4 milhões, um valor considerável que, embora menor que o de grandes legendas, é suficiente para financiar campanhas e manter uma estrutura mínima. No entanto, o partido não tem acesso ao Fundo Partidário, que banca o funcionamento contínuo das legendas, nem ao tempo de propaganda em rádio e TV, por não atingir o desempenho mínimo exigido nas urnas.

Para o PSTU, as eleições são vistas como um instrumento de agitação e defesa da revolução socialista, além de uma forma de arrecadar recursos. A participação eleitoral, mesmo sem perspectiva de vitória, serve para ampliar o alcance de suas mensagens e mobilizar a classe trabalhadora para a luta contra o sistema capitalista.

Hertz Dias: Do Rap à Revolução, a Influência de Racionais MC’s e Malcolm X

Ciente da escassez de espaço na mídia tradicional, Hertz Dias tem percorrido o circuito de podcasts de esquerda para impulsionar sua pré-candidatura. Em suas entrevistas, ele narra sua trajetória: de jovem pobre que encontrou no rap uma forma de expressão, passando pela experiência com o movimento hip-hop local, até sua militância política. Nascido em São José de Ribamar, região metropolitana de São Luís, filho de um motorista e uma auxiliar de enfermagem, Hertz é reconhecido como um dos pioneiros do hip-hop maranhense, tendo sido dançarino de break, fundador do movimento Quilombo Urbano e vocalista do grupo Gíria Vermelha.

Dias relata que abandonou os estudos na adolescência devido ao racismo, retornando apenas após ouvir o grupo Racionais MC’s e conhecer as ideias de Malcolm X. Esse contato também o aproximou do marxismo revolucionário. Posteriormente, formou-se em História pela Universidade Federal do Maranhão e obteve mestrado em Educação, consolidando sua base teórica para a militância política.

Visão de Mundo: Capitalismo, Racismo e o Fim da Propriedade Privada

A fusão entre rap, questões raciais e marxismo é o cerne da visão de mundo de Hertz Dias. Ele interpreta praticamente todos os fenômenos sociais através desse prisma. Para o pré-candidato, o racismo não é um desvio do sistema, mas sim um componente intrínseco e produtivo do capitalismo. “O capitalismo produz e reproduz cotidianamente o racismo”, afirma, argumentando que a verdadeira libertação da população negra só ocorrerá simultaneamente ao fim da propriedade privada.

Suas propostas econômicas são radicais: defende a expropriação das fortunas dos bilionários brasileiros, a estatização completa do sistema financeiro, a fusão dos bancos sob controle estatal e a suspensão imediata da dívida pública. No campo, propõe a “expropriação sem indenização e sob o controle dos trabalhadores”. As instituições atuais, como o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal (STF), são vistas por ele como “inimigas da classe trabalhadora”, e ele propõe a substituição da democracia representativa por conselhos populares, onde as decisões seriam tomadas diretamente pelos trabalhadores.

Críticas Abrangentes: da Extrema Direita ao Governo Lula e ao Conceito de “Woke”

O isolamento político do PSTU, segundo analistas, pode ser atribuído à postura crítica do partido a quase todos os atores políticos. Hertz Dias classifica a “extrema direita bolsonarista” como o “chorume da política brasileira”. Ele direciona críticas especiais aos “negros de direita”, definindo-os como “intelectuais orgânicos subservientes a brancos racistas burgueses”.

O governo Lula é categorizado como um gestor da “decadência do capitalismo”, governando “para a burguesia”. Mesmo figuras emergentes da esquerda, como Guilherme Boulos e Anielle Franco, são acusadas de “transformismo político”, ao entrarem no sistema e, segundo Dias, ajudarem a mantê-lo. Até mesmo a discussão sobre “racismo estrutural”, popularizada por Silvio Almeida, é alvo de críticas, vista por Hertz como um “álibi” confortável que aponta o problema de forma abstrata sem definir claramente os culpados (a elite econômica).

Confronto Total na Política Internacional e Nacional

Na esfera internacional, a postura de Hertz Dias é de confronto total. Ele defende a “destruição de Israel”, chamando o país de “Estado escorpião” e “plataforma militar dos EUA”. Sobre a guerra na Ucrânia, apoia a resistência contra a “agressão imperialista da Rússia”, mas recusa qualquer apoio ao governo de Zelensky. A China também é vista como uma perigosa potência imperialista, criticando sua expansão comercial agressiva, embora os Estados Unidos sejam considerados os “inimigos principais”.

Em suma, Hertz Dias argumenta que a luta contra o capitalismo é a única via para salvar a humanidade, rejeitando qualquer forma de consenso ou moderação. “É impossível salvar o planeta tentando salvar o capitalismo. Tem que ser com revolução socialista”, afirma. Ele acredita que o Brasil está preso entre dois projetos que servem à burguesia: o lulismo, que “quer continuar administrando essa decadência”, e a “extrema direita”, que busca “aprofundar a entrega de todas as nossas riquezas numa velocidade muito superior”.

Propostas Econômicas Radicais e a Resposta a Críticas

Em entrevista à Gazeta do Povo, Hertz Dias explicou que sua participação nas eleições, que considera uma farsa, é uma forma de contestá-las por dentro. “Parte dessa batalha é denunciar o processo eleitoral, desigual e antidemocrático, onde o povo é apenas chamado a votar e não a governar, a tomar decisões”, declarou.

Sobre a proposta de acabar com a propriedade privada, ele esclarece que o alvo não é o dono do mercadinho ou o trabalhador autônomo, mas sim “o grande capital internacional, em que a burguesia brasileira entra como sócia menor e batedora de carteira”. Pequenos empresários, segundo ele, seriam beneficiados com acesso a crédito público e juros baixos. Sua promessa é implantar uma “economia planificada, voltada para atender as necessidades do nosso povo”.

Questionado sobre os riscos práticos de suas propostas, como fuga de capitais ou desorganização econômica, Hertz respondeu que empresas que ameaçarem sair do Brasil podem fazê-lo livremente. “Mas todo o maquinário ficará em nosso país como forma de reparação por todos os anos de superexploração dos nossos trabalhadores, das nossas riquezas e de destruição do meio ambiente”, afirmou, demonstrando sua determinação em implementar suas ideias.

A Esperança na Classe Trabalhadora e o “Excesso de Traições”

Hertz Dias conclui suas análises afirmando que a esperança reside na classe trabalhadora, desde que ela possua uma liderança à altura de seus desafios. “O maior problema da classe trabalhadora brasileira não é a falta de luta e ousadia, mas o excesso de traições impostas por direções que se renderam às benesses dos grandes palácios”, desabafou. Essa visão reforça sua crítica a lideranças que, em sua opinião, se acomodaram ao sistema em vez de promoverem a revolução socialista que ele prega como única solução para os problemas do Brasil e do mundo.

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