Consumo de bebidas quentes acima de 65°C pode elevar risco de câncer de esôfago, aponta estudo científico
Uma xícara de café ou chá recém-preparada pode parecer inofensiva, mas a temperatura da bebida merece atenção especial. Um estudo recente conduzido por pesquisadores da Universidade de Oxford, publicado no International Journal of Cancer, identificou uma associação preocupante entre o consumo de bebidas em temperaturas elevadas e um risco maior de desenvolver carcinoma de células escamosas do esôfago.
A pesquisa analisou dados de mais de 977 mil adultos do Reino Unido ao longo de uma década, registrando 2.348 casos da doença. Os resultados indicam que o risco foi significativamente maior entre aqueles que relataram preferir bebidas muito quentes e, especialmente, entre os que consumiam seis ou mais dessas bebidas quentes diariamente. Apesar da associação encontrada, os cientistas ressaltam que o consumo de café ou chá quente não leva automaticamente ao câncer, sendo a temperatura do líquido e a exposição repetida do tecido esofágico ao calor os principais fatores de atenção.
Essas descobertas reforçam alertas anteriores de organizações de saúde e trazem um novo olhar sobre hábitos cotidianos que podem impactar a saúde a longo prazo. A informação é baseada em um estudo publicado no International Journal of Cancer.
Associação gradual entre temperatura da bebida e risco de câncer de esôfago
Os achados do estudo de Oxford revelam uma relação clara e gradual entre a preferência pela temperatura das bebidas e o risco de desenvolver carcinoma de células escamosas do esôfago. Comparados aos indivíduos que preferiam bebidas mornas, aqueles que optavam por bebidas quentes apresentaram um risco aproximadamente 69% maior. Para os que declararam preferir bebidas muito quentes, o risco estimado foi cerca de três vezes maior.
Além da temperatura, a quantidade consumida também se mostrou um fator relevante. Ao considerar a temperatura, pessoas que tomavam seis ou mais bebidas quentes por dia tiveram um risco 71% maior de desenvolver o carcinoma de células escamosas em comparação com aquelas que consumiam menos de seis porções diárias. Essa combinação de fatores – alta temperatura e alto volume de consumo – parece ser particularmente prejudicial para a saúde do esôfago.
Por que o calor excessivo pode lesar o esôfago?
A gastroenterologista Juliana Gibram, professora de pós-graduação da Afya Educação Médica Curitiba, explica que a agressão térmica repetida é o principal mecanismo por trás dessa associação. “Bebidas muito quentes podem provocar lesão térmica repetida da mucosa do esôfago. Quando essa agressão acontece frequentemente, há inflamação e necessidade de reparação celular repetitiva”, detalha a médica.
Segundo Gibram, esse processo de inflamação e reparo celular constante é biologicamente plausível como um dos fatores que podem contribuir para alterações celulares ao longo do tempo, potencialmente levando ao desenvolvimento de câncer. No entanto, é crucial notar que uma queimadura ocasional ou o consumo esporádico de uma bebida muito quente não significa necessariamente que a pessoa desenvolverá a doença. O risco está associado à frequência e à intensidade da exposição ao calor.
A pesquisa também sugere que o tipo específico de bebida pode ter um papel secundário. Os resultados foram semelhantes para consumidores de chá e café, indicando que a temperatura, mais do que os componentes químicos das bebidas, é provavelmente o fator determinante. Estudos experimentais corroboram essa hipótese, mostrando que água muito quente também pode causar lesões no esôfago, reforçando a ideia de que o calor em si é o agente agressor principal.
A referência de 65°C e a percepção individual de calor
A temperatura de 65°C é frequentemente citada como um marco importante quando se discute a relação entre bebidas quentes e câncer. Em 2016, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), vinculada à Organização Mundial da Saúde (OMS), classificou bebidas muito quentes, acima de 65°C, como “provavelmente cancerígenas para humanos”. Essa classificação baseou-se nas evidências científicas disponíveis sobre o câncer de esôfago associado ao consumo dessas bebidas.
É importante notar que, no estudo de Oxford, os pesquisadores não mediram a temperatura exata das bebidas consumidas pelos participantes. Em vez disso, eles perguntaram sobre a preferência dos indivíduos por bebidas “mornas”, “quentes” ou “muito quentes”. Essa abordagem subjetiva significa que a percepção do que é “quente” pode variar significativamente de uma pessoa para outra. Portanto, o estudo não permite determinar com precisão a temperatura exata associada a cada nível de risco, mas sim a percepção individual de quão quente a bebida é.
O que fazer na prática: dicas para um consumo mais seguro
Para Juliana Gibram, o valor de 65°C deve ser encarado como um parâmetro epidemiológico, e não como uma fronteira absoluta de segurança. “O limite mais utilizado pela IARC é: 65°C = ‘muito quente’. Não significa, porém, que 64°C seja comprovadamente seguro e 66°C seja perigoso. É um ponto de referência epidemiológico”, afirma a médica.
Na prática, a recomendação mais sensata é evitar beber café ou chá enquanto o líquido ainda estiver causando a sensação de queimação na boca ou na língua. “Deixar esfriar até uma temperatura confortavelmente quente é uma medida simples e razoável. Não é necessário esperar a bebida ficar fria ou apenas morna”, orienta a gastroenterologista. Essa pequena pausa pode ser suficiente para reduzir o impacto térmico no esôfago.
Para quem busca uma referência mais objetiva, a médica sugere o uso de um termômetro culinário para verificar a temperatura, evitando o consumo repetido de bebidas acima de 65°C. Essa medida é especialmente relevante para bebidas tradicionais como o chimarrão e o mate, onde a água é consumida em temperaturas elevadas.
Não é preciso abandonar o café ou o chá, mas sim ajustar o consumo
Os dados científicos atuais não indicam a necessidade de abandonar o consumo de café ou chá para prevenir o câncer de esôfago. A principal medida sugerida pelos resultados é a redução da temperatura de consumo e a evitação de exposições frequentes a líquidos excessivamente quentes. O alerta sobre café quente e câncer deve ser colocado em perspectiva, focando no hábito de consumo.
É importante entender que o estudo encontrou um aumento de risco relativo. Isso significa que, embora o risco aumente com o consumo de bebidas muito quentes, a probabilidade de uma pessoa desenvolver câncer de esôfago não se torna drasticamente alta. “Um aumento relativo de 2-3 vezes não significa que o risco absoluto seja de 2-3 em cada 10 pessoas”, explica Juliana Gibram. Ela exemplifica que, se o risco absoluto inicial for de 1%, um aumento de três vezes resultaria em aproximadamente 3%, e não em 300%.
Fatores de risco para câncer de esôfago e o papel das bebidas quentes
O câncer de esôfago, embora uma doença grave, ainda é relativamente incomum na população geral. Existem fatores de risco mais estabelecidos e com maior impacto na incidência da doença, como o tabagismo e o consumo excessivo de álcool. Esses hábitos, quando combinados, aumentam significativamente a chance de desenvolvimento do câncer.
O estudo identificou uma associação específica com o carcinoma de células escamosas, um dos principais tipos de câncer de esôfago. Para o adenocarcinoma, outro subtipo importante da doença, não foi encontrada uma associação relevante com a preferência por bebidas muito quentes. A diferença na associação pode estar nas características das células afetadas: o carcinoma de células escamosas origina-se nas células que revestem o esôfago, que são diretamente expostas ao calor repetido, enquanto o adenocarcinoma afeta glândulas mais profundas.
A recomendação final, portanto, é simples e prática: esperar alguns minutos antes de beber café ou chá, evitando o hábito de consumir líquidos que ainda provocam a sensação de queimação. “Não necessariamente” é preciso deixar de tomar as bebidas, resume Juliana Gibram. “Minha orientação é a de mudar a temperatura.” Essa pequena adaptação no hábito diário pode contribuir significativamente para a redução de uma exposição potencialmente prejudicial ao longo dos anos, sem a necessidade de abrir mão do prazer de uma bebida quente.