Flávio Bolsonaro mira “padrão Bukele” em agenda de segurança e promete endurecimento contra o crime
A campanha presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pretende transformar o discurso de endurecimento contra o crime em uma de suas principais bandeiras, utilizando o modelo de segurança pública implementado em El Salvador, sob a gestão de Nayib Bukele, como referência.
A estratégia surge em um momento em que a segurança pública figura como a principal preocupação dos brasileiros, com 33% dos entrevistados citando a violência como o problema mais relevante em pesquisa recente. Flávio Bolsonaro tem associado sua proposta à ideia de “recuperar o controle das ruas”, criticando a situação atual onde, segundo ele, “o bandido domina a rua, domina até o governo”.
A inspiração no “padrão Bukele” inclui a promessa de ampliar o sistema prisional, aumentar penas e restringir benefícios para integrantes de organizações criminosas. O modelo salvadorenho, embora associado a uma queda nos índices de homicídios, também é alvo de críticas por parte de organizações de direitos humanos devido a alegações de prisões arbitrárias e tortura. As informações são de fontes ligadas à campanha do senador.
Segurança pública lidera preocupações e molda discurso de campanha
A segurança pública emergiu como a principal preocupação dos brasileiros, superando outros temas cruciais como economia, saúde e corrupção. Uma pesquisa Quaest, divulgada em meados de agosto, revelou que 33% dos entrevistados apontaram a violência como o problema mais urgente, evidenciando a sensibilidade do eleitorado em relação ao tema e a oportunidade para campanhas que apresentem propostas de combate ao crime.
Nesse cenário, a campanha de Flávio Bolsonaro busca capitalizar o sentimento de insegurança, propondo um discurso de “lei e ordem” e “tolerância zero” com o crime organizado. O senador tem utilizado suas participações em eventos públicos e lives para reforçar a ideia de que é preciso “devolver as ruas” à população e retomar o controle territorial, frequentemente criticando a atuação do governo atual em relação à segurança.
Em um evento em Nova Iguaçu, Flávio Bolsonaro fez um apelo direto às organizações criminosas, declarando que elas deveriam “meter o pé” até o fim do ano, contrastando a postura que atribui ao atual presidente, a quem acusa de “passar a mão na cabeça” dos criminosos. Essa retórica visa a mobilizar eleitores que se sentem desprotegidos e que buscam uma resposta mais enérgica do Estado.
O “Padrão Bukele”: Modelo de El Salvador e suas Controvérsias
A referência ao “padrão Bukele” remete às políticas de segurança implementadas pelo presidente de El Salvador, Nayib Bukele, que resultaram em uma queda expressiva nas taxas de homicídio no país centro-americano. A estratégia salvadorenha se baseia em medidas de forte repressão, incluindo a declaração de estado de exceção, o que permite a suspensão de algumas garantias constitucionais e a realização de prisões em massa.
No entanto, o modelo de Bukele também atrai fortes críticas de organizações de direitos humanos, como a Anistia Internacional e a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH). Relatórios apontam para um aumento significativo de prisões arbitrárias, casos de tortura e mortes sob custódia do Estado, levantando questionamentos sobre a legalidade e a humanidade das ações.
A campanha de Flávio Bolsonaro, ao adotar essa referência, busca projetar uma imagem de firmeza e eficiência no combate à criminalidade. A proposta inclui a classificação de facções criminosas como organizações terroristas, o aumento da capacidade do sistema prisional e a elevação do tempo de cumprimento de pena, medidas que visam a dissuadir a ação criminosa e a punir severamente os infratores.
Propostas Específicas de Flávio Bolsonaro para o Endurecimento Penal
A agenda de segurança proposta por Flávio Bolsonaro detalha medidas concretas que visam a endurecer o sistema penal brasileiro. Entre as propostas mais destacadas está a criminalização de facções como PCC e Comando Vermelho, além de milícias, sob a classificação de organizações terroristas. Essa medida, se implementada, teria implicações significativas na forma como essas organizações seriam combatidas e punidas.
Outro ponto central é a ampliação do sistema prisional e o aumento do tempo de cumprimento de pena. Especificamente, o senador propôs a instituição de uma pena mínima de oito anos para roubo de celulares e para receptadores. A justificativa é que o infrator deveria “trabalhar para pagar a sua estadia” e “dar valor e saber como é difícil comprar um celular”, buscando um caráter punitivo mais severo e dissuasório.
Além disso, o plano de governo de Flávio Bolsonaro prevê mudanças no regime de cumprimento de penas para condenados por crimes hediondos, com o objetivo de restringir a progressão de regime. Essa medida visa a garantir que condenados por crimes graves permaneçam por mais tempo em regime fechado, reforçando a ideia de rigor na execução das condenações. A proposta de retomada da discussão sobre castração química para condenados por crimes sexuais também figura entre as pautas de maior severidade penal.
Redução da Maioridade Penal: Pauta com Amplo Apoio Popular e Potencial Político
A estratégia de Flávio Bolsonaro em explorar a redução da maioridade penal está alinhada com um amplo apoio da medida entre o eleitorado brasileiro. Pesquisas indicam que a maioria da população é favorável à diminuição da idade de responsabilização penal para 16 anos, o que pode se tornar um ponto de ataque à posição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), historicamente contrário à proposta.
Uma pesquisa Real Time Big Data, divulgada em maio, mostrou que 90% dos brasileiros apoiam a redução da maioridade penal para 16 anos. O apoio é expressivo mesmo entre eleitores de diferentes espectros políticos, inclusive entre os que votam em Lula, onde a aprovação atinge 81%. Entre os eleitores de Flávio Bolsonaro, o apoio chega a 96%, demonstrando a força do tema no eleitorado conservador.
O Partido Liberal (PL) pretende não apenas incluir a redução da maioridade penal em seu plano de governo, mas também articular uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) para avançar com a matéria. Uma comissão especial para discutir o projeto foi instalada na Câmara dos Deputados, mas a votação deve ocorrer após o período eleitoral, para evitar acusações de politização. O relator da proposta, Mendonça Filho (PL-PE), afirmou que o tema será tratado com responsabilidade e deliberado após as eleições.
Flávio Bolsonaro defende redução da maioridade penal para 14 anos em casos graves
O senador Flávio Bolsonaro tem defendido ativamente a redução da maioridade penal, chegando a propor que a idade mínima seja de 14 anos para crimes hediondos. Essa posição foi reforçada após o caso de estupro coletivo contra duas estudantes em Pernambuco, onde adolescentes foram apreendidos. O senador utilizou o episódio para argumentar sobre a urgência da reforma.
Em suas redes sociais e lives semanais, Flávio Bolsonaro tem instado seus apoiadores a votarem em candidatos que defendam a redução da maioridade penal. “Eu não quero só para 16 anos a maioridade penal. Eu quero a maioridade penal para 14 anos em casos de crimes hediondos como este”, declarou, em um apelo direto para influenciar o voto em deputados federais e senadores.
A expectativa da campanha é que uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro amplie a mobilização para a aprovação da PEC. A proposta de redução da maioridade penal, especialmente em casos de crimes graves, ressoa com uma parcela significativa do eleitorado que clama por respostas mais duras e imediatas à criminalidade, especialmente quando envolve jovens infratores.
Tecnologia e Proteção à Mulher na Agenda de Segurança
Além do foco no endurecimento penal, a agenda de segurança de Flávio Bolsonaro também incorpora o uso de tecnologia para aprimorar a proteção às mulheres. Em discurso realizado em Nova Iguaçu, o senador afirmou que pretende utilizar ferramentas tecnológicas para aumentar a capacidade de resposta policial em casos de violência contra mulheres, buscando combater o machismo.
“Nós vamos garantir com tecnologia que a mulher não seja mais vítima desse machismo, porque, se chegarem perto delas, a polícia é acionada automaticamente”, disse Bolsonaro, propondo um sistema de alerta rápido que conectaria vítimas em potencial diretamente às forças de segurança. A proposta visa a oferecer uma camada adicional de proteção e agilidade na intervenção policial.
Essa inclusão de medidas voltadas à proteção de grupos específicos, como as mulheres, busca ampliar o apelo da plataforma de segurança da campanha. Ao combinar propostas de repressão rigorosa com soluções tecnológicas e foco em grupos vulneráveis, a campanha tenta construir um discurso abrangente sobre segurança pública, atendendo a diferentes segmentos do eleitorado.
Desafios na Execução e Custos do “Padrão Bukele”
Apesar do esforço em apresentar o modelo de El Salvador como referência, especialistas alertam para os desafios e custos de uma política de segurança baseada unicamente no endurecimento. A estratégia de Nayib Bukele, embora tenha reduzido os homicídios, gerou críticas pela suspensão de garantias constitucionais e pela possibilidade de prisões sem ordem judicial, levando a cerca de 84 mil prisões sob o regime de exceção.
Organizações como a Anistia Internacional e a CIDH denunciaram prisões arbitrárias, tortura e mortes sob custódia, levantando sérias preocupações sobre os direitos humanos. O mega centro de detenção CECOT, com capacidade para 40 mil detentos, é um símbolo dessa política, mas seu modelo também enfrenta questionamentos sobre efeitos institucionais e sociais a longo prazo.
Adicionalmente, o desempenho de El Salvador em outras áreas, como a redução da pobreza extrema que quase dobrou entre 2019 e 2022, levanta dúvidas sobre a sustentabilidade e os impactos sociais de políticas de segurança focadas em repressão. O advogado criminalista Gabriel Cardoso Cândido ressalta a importância de avaliar a capacidade de transformar promessas em políticas efetivas, considerando a definição de medidas concretas, a viabilidade de execução e a indicação de competências e recursos envolvidos.
Metodologias das Pesquisas Citadas
A pesquisa Quaest mencionada na reportagem foi realizada por meio de entrevistas presenciais com 2.004 pessoas em âmbito nacional, entre 10 e 13 de agosto. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, com nível de confiança de 95%. O levantamento foi contratado pela Rede Globo e registrado no TSE sob o número BR-06773/2026.
Já a pesquisa Real Time Big Data ouviu 2 mil pessoas em todo o país entre 2 e 4 de maio, com margem de erro de 2 pontos percentuais e nível de confiança de 95%. A pesquisa foi realizada com recursos próprios do instituto e está registrada no TSE sob o protocolo BR-03627/2026.