PF aponta 74 ligações e proximidade entre Jaques Wagner e ex-sócio do Banco Master
A Polícia Federal identificou 74 chamadas telefônicas entre o senador Jaques Wagner (PT-BA) e Augusto Ferreira Lima, ex-sócio do Banco Master, realizadas entre novembro de 2023 e maio de 2024. As conversas, que totalizaram mais de cinco horas e meia, indicam uma relação pessoal intensa, com manifestações de afeto e convites frequentes para a propriedade de Lima, conhecida como “Ilha da Paixão”, na Bahia. O conteúdo dessas comunicações foi revelado após o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), levantar o sigilo de documentos referentes ao caso Master.
As evidências sugerem uma preferência por chamadas de voz para evitar registros escritos, o que, segundo a PF, demonstra uma tentativa de discrição. A família do senador, incluindo sua esposa Fátima Wagner, era convidada recorrente para a ilha, conforme áudios e mensagens trocadas entre Wagner e Lima. A investigação aponta que essa relação extrapolava o âmbito institucional, caracterizando-se por um alto grau de intimidade e concessão de benefícios, como o uso de aeronaves do grupo empresarial.
As informações sobre os encontros e lazeres na “Ilha da Paixão” foram obtidas pela PF através de um grupo de WhatsApp denominado “Família Brahia”, onde familiares de Wagner e Lima compartilhavam fotos e vídeos. A proximidade entre os envolvidos e a discrição adotada em alguns encontros, como orientações para evitar identificação em gabinetes e o uso de hangares não usuais para voos, levantam suspeitas de potenciais vantagens indevidas associadas ao exercício da função pública do senador. Conforme informações divulgadas pela Polícia Federal e pelo Supremo Tribunal Federal.
Relação de Proximidade e Afeto Entre Senador e Empresário
A Polícia Federal descreveu a relação entre Jaques Wagner e Augusto Ferreira Lima como “marcada por manifestações de afeto e proximidade pessoal e familiar”. Essa caracterização, extraída dos relatórios de inteligência baseados na interceptação telefônica do empresário, sugere um vínculo que vai além das interações institucionais ou profissionais. As 74 ligações identificadas, com duração total de mais de cinco horas e meia, reforçam a tese de uma convivência intensa e frequente.
A investigação aponta que a comunicação era predominantemente feita por chamadas de voz, uma estratégia que, segundo a PF, poderia ter o objetivo de evitar a criação de registros escritos que pudessem ser facilmente rastreados ou interpretados. Essa escolha de modalidade de comunicação é vista como um indicativo de discrição por parte dos investigados.
A “Ilha da Paixão”, propriedade localizada na Bahia e sob o controle de Augusto Lima, figura como um palco central para essa proximidade. A família do senador Jaques Wagner era convidada frequente para desfrutar do local, evidenciando um nível de intimidade e confiança entre os envolvidos.
“Ilha da Paixão”: Lazer e Conexões Familiares
As viagens e estadias na “Ilha da Paixão” eram frequentes e envolviam a família do senador. Em outubro de 2023, um áudio enviado por Jaques Wagner a Augusto Lima confirma a ida de sua esposa à ilha: “Bom dia, Guga. Tudo indica que Fatinha topa ir no sábado. Aí a gente combina mais pra frente, abraço”. Essa mensagem demonstra a informalidade e a natureza pessoal dos contatos.
Em resposta ao convite, o empresário providenciou a logística aérea, enviando informações sobre a aeronave e o horário. A PF obteve provas desses momentos de lazer através de um grupo de WhatsApp chamado “Família Brahia”, onde familiares de ambos, o senador e o empresário, compartilhavam fotos e vídeos desfrutando da ilha. Após uma dessas estadias, a esposa do senador, Maria de Fátima, enviou mensagens afetuosas a Lima, como “A gente ama vcs” e “Tudo lindo!!!”, reforçando o vínculo familiar.
O uso da propriedade e de aeronaves do grupo empresarial para momentos de lazer se estendeu por outras ocasiões. Em 28 de dezembro de 2024, por exemplo, Jaques Wagner foi convidado para uma nova visita e questionou a possibilidade de ir de helicóptero, recebendo a confirmação de Lima e o aviso posterior de que o transporte estava “resolvido”.
Discreção e Estratégias para Evitar Flagrantes
A investigação da Polícia Federal aponta que Jaques Wagner, Augusto Lima e outros envolvidos adotavam medidas de discrição para evitar a atenção e possíveis questionamentos sobre seus encontros e atividades. Em uma ocasião, em um encontro marcado em um gabinete, Wagner orientou Lima a chegar em um horário específico para minimizar a visibilidade: “Eu posso ir lá embaixo, chegar mais ou menos junto com você na hora que for marcada e subo e você não precisa nem passar pela identificação”.
Essa estratégia de encontro discreto visa dificultar o rastreamento das interações e evitar que os encontros públicos chamem a atenção. A PF interpreta essas ações como parte de um plano para manter a relação e as atividades conjuntas longe dos holofotes, especialmente considerando a posição pública de Wagner.
Nas viagens aéreas, a discrição era ainda mais acentuada. O dono do Master, Daniel Vorcaro, orientava seus pilotos a utilizarem hangares desconhecidos e, sempre que possível, a não desligarem os motores das aeronaves durante as paradas. O objetivo, segundo as instruções, era evitar “conversa fiada”, ou seja, a geração de informações e comentários que pudessem atrair atenção indesejada para as operações.
Suspeita de Concessão de Vantagens Indevidas
A Polícia Federal considera que os elementos coletados, incluindo as ligações telefônicas, os encontros discretos e o uso de propriedades e aeronaves, indicam a “concessão de vantagens indevidas”. Essas vantagens, de natureza patrimonial e financeira, estariam potencialmente associadas ao exercício da função pública do senador Jaques Wagner. A PF busca determinar se houve alguma contrapartida ou benefício indevido em troca de favores ou influência política.
A investigação sugere que a proximidade entre Wagner e Lima, e o acesso facilitado a recursos como aeronaves e propriedades de luxo, podem configurar um esquema de troca de favores. A natureza das conversas e a discrição adotada reforçam a suspeita de que tais benefícios não eram meramente de cortesia, mas sim parte de uma relação que poderia configurar ilícitos.
A análise dos dados pela PF visa esclarecer a extensão dessas vantagens e sua possível ligação com decisões ou ações do senador em sua vida pública. A investigação busca, portanto, mapear a dinâmica da relação e identificar se houve qualquer irregularidade que pudesse configurar crime.
Jaques Wagner: Alvo da Operação Compliance Zero
Em junho, o senador Jaques Wagner (PT-BA) deixou a liderança do governo no Senado para se dedicar à sua defesa e “provar sua inocência”. A decisão ocorreu após ele ser alvo da 9ª fase da Operação Compliance Zero, que investiga irregularidades envolvendo o Banco Master. A operação busca apurar crimes financeiros e lavagem de dinheiro.
Durante as ações da operação, a Polícia Federal realizou apreensões em endereços ligados ao senador em Brasília e em Salvador. Foram encontrados em espécie US$ 55 mil e € 33 mil, além de relógios de luxo. Esses bens foram recolhidos como parte das investigações.
O advogado de Jaques Wagner, Pablo Domingues, defende a origem lícita dos valores apreendidos. Segundo ele, parte do dinheiro provém de diárias publicamente declaradas pagas pelo Senado para missões no exterior, e outra parte foi adquirida por meio de operações oficiais junto a instituições financeiras, com registro regular. A defesa confia na correção de eventuais equívocos por parte do STF.
Defesa de Wagner Confia na Justiça e Reafirma Conduta
O advogado Pablo Domingues, representante do senador Jaques Wagner, enfatizou a origem lícita e comprovada dos valores apreendidos durante a Operação Compliance Zero. Ele declarou que parte dos recursos tem origem em diárias de missões oficiais no exterior, pagas pelo Senado Federal, e outra parte foi adquirida legalmente em instituições financeiras, com toda a documentação em ordem.
Domingues também mencionou que o Ministério Público Federal já havia considerado prematura a apreensão desses bens, o que reforça a confiança da defesa na inocência do senador. A defesa acredita que o Supremo Tribunal Federal irá analisar os fatos com rigor e corrigir quaisquer equívocos que possam ter ocorrido durante o processo de apreensão.
O advogado reafirmou a tranquilidade do senador quanto à sua conduta e declarou que “não há nada a ocultar”. A defesa está empenhada em apresentar todas as provas necessárias para demonstrar a lisura das ações de Jaques Wagner e esclarecer os fatos investigados pela Polícia Federal.
O Que Pode Acontecer a Partir de Agora
Com o levantamento do sigilo e a divulgação das informações pela Polícia Federal, o caso envolvendo o senador Jaques Wagner e o ex-sócio do Banco Master ganha novos contornos. A continuidade das investigações pelo STF será crucial para determinar a existência ou não de irregularidades e a eventual responsabilização dos envolvidos.
A PF buscará aprofundar as apurações sobre a natureza das vantagens indevidas, buscando evidências concretas de que houve troca de favores ou influência indevida em troca de benefícios. A análise de outras comunicações e documentos poderá trazer mais clareza sobre a extensão da relação e seus possíveis desdobramentos legais.
A defesa de Jaques Wagner continuará a apresentar seus argumentos e provas para demonstrar a legalidade de suas ações e a origem lícita dos bens apreendidos. O desfecho deste caso poderá ter implicações significativas na carreira política do senador e na imagem do Banco Master, dependendo das conclusões das autoridades judiciais.