Brasil pode impulsionar a mineração com mega projetos, aponta Vale em estudo
A mineradora Vale defende que o Brasil retome a realização de mega projetos de mineração, com investimentos estimados entre US$ 15 bilhões e US$ 20 bilhões. Segundo o presidente da empresa, Gustavo Pimenta, a companhia possui o capital, o conhecimento técnico e a infraestrutura necessários para liderar esses empreendimentos. A declaração foi feita durante o lançamento do estudo “Destravando o Potencial da Mineração no Brasil”, que propõe uma agenda de Estado para o setor, focada em “projetos transformacionais” e com a devida atenção às questões ambientais.
O último grande projeto de mineração da Vale inaugurado no país foi a mina S11D, há cerca de uma década, em Carajás, no Pará. Pimenta destacou que a região ainda possui um vasto potencial a ser explorado, de onde a empresa já extrai uma parte significativa de seu minério de ferro. A proposta da Vale visa a impulsionar o crescimento do setor, que, segundo o estudo, pode aumentar sua produção anual para até R$ 535 bilhões em 2035, um salto de 78% em relação aos cerca de R$ 300 bilhões atuais.
O estudo, elaborado em colaboração com a consultoria Accenture, aponta que o Brasil detém algumas das maiores reservas globais de minerais estratégicos, mas tem perdido competitividade devido a entraves no licenciamento ambiental, infraestrutura deficiente e lacunas no conhecimento geológico. Apenas 28% do território nacional possui cobertura geológica adequada para orientar pesquisas, conforme o levantamento. As informações foram divulgadas pela Reuters.
O Estudo “Destravando o Potencial da Mineração no Brasil”
O relatório “Destravando o Potencial da Mineração no Brasil”, lançado por Gustavo Pimenta, é um documento que detalha as propostas da Vale para alavancar o setor de mineração no país. A pesquisa, realizada em parceria com a consultoria Accenture, identifica os principais gargalos que impedem o Brasil de explorar plenamente seu potencial geológico e mineral. Entre as questões levantadas estão a burocracia excessiva no licenciamento ambiental, a necessidade de melhorias significativas na infraestrutura logística e energética, e a carência de mapeamento geológico aprofundado em vastas áreas do território nacional.
De acordo com o estudo, a implementação de um conjunto de medidas estratégicas poderia elevar a produção mineral anual do Brasil de aproximadamente R$ 300 bilhões para até R$ 535 bilhões até 2035. Esse aumento de 78% seria impulsionado pela otimização dos processos de licenciamento, pela expansão do conhecimento geológico do subsolo brasileiro e pelo fortalecimento do arcabouço regulatório do setor. A Vale argumenta que o país tem a oportunidade de capitalizar sobre a crescente demanda global por minerais críticos, essenciais para tecnologias como veículos elétricos, armazenamento de energia e infraestrutura digital.
A Necessidade de “Projetos Transformacionais” e o Papel da Vale
Gustavo Pimenta enfatizou a necessidade de o Brasil desenvolver “projetos transformacionais” na área de mineração. Ele argumenta que a Vale tem a capacidade financeira e técnica para liderar esses empreendimentos de grande porte, que podem variar entre US$ 15 bilhões e US$ 20 bilhões. “Nós temos capital, temos como fazer, temos conhecimento técnico. A gente precisa entender que esses projetos vão mover o ponteiro, a gente tem a infraestrutura e a gente precisa acelerar o desenvolvimento desses projetos”, afirmou Pimenta durante o fórum “Destravando o Potencial da Mineração no Brasil”.
A mineradora propõe a criação de uma agenda de Estado, com a formação de forças-tarefas envolvendo o governo e o setor privado, para identificar e viabilizar esses projetos. Pimenta ressaltou que, apesar da urgência em “destravar o potencial do Brasil”, o desenvolvimento deverá ocorrer “com todo rigor ambiental necessário”. A empresa busca, com essas iniciativas, não apenas aumentar sua própria produção, mas também contribuir para o desenvolvimento econômico e social do país, gerando empregos e arrecadação.
Desafios Históricos e a Recuperação da Confiança Após Tragédias
O setor de mineração no Brasil tem enfrentado desafios significativos, especialmente após os rompimentos de barragens em Minas Gerais, em 2015 (Mariana) e 2019 (Brumadinho). Esses eventos trágicos resultaram em centenas de mortes e graves danos socioambientais, levando a uma maior fiscalização e à criação de novas regras de segurança para o desenvolvimento de novos projetos. A Vale, em particular, teve que rever a segurança de diversas operações e cortar capacidade produtiva em resposta às tragédias.
Pimenta reconheceu o impacto das tragédias e o processo de aprendizado da empresa. “Brumadinho foi um momento de muita dor para a companhia, para a sociedade. Nós frustramos a sociedade brasileira naquele momento, geramos muita dor, muito impacto, e desde então a companhia passa por uma profunda transformação”, declarou o executivo. Ele defende que a experiência adquirida, mesmo que a partir de “muita dor e aprendizado”, é fundamental para garantir que futuros mega projetos sejam desenvolvidos com total responsabilidade social e ambiental, assegurando um impacto positivo e a geração de valor para as comunidades.
Oportunidades na Demanda Global por Minerais Críticos
O estudo da Vale destaca a oportunidade única que o Brasil tem de se posicionar como um player ainda mais relevante no mercado internacional de minerais. A crescente demanda global por minerais críticos, essenciais para a transição energética e a digitalização, como os utilizados em veículos elétricos, sistemas de armazenamento de energia e data centers, representa um nicho de mercado em expansão. O Brasil, com suas vastas reservas naturais, está em uma posição privilegiada para atender a essa demanda.
Para capitalizar sobre essa oportunidade, a Vale propõe uma agenda coordenada entre governo, setor privado e sociedade. Essa colaboração seria fundamental para identificar e desenvolver projetos que não apenas atendam à demanda global, mas que também sejam economicamente viáveis e ambientalmente sustentáveis. A empresa acredita que, com as políticas corretas e investimentos direcionados, o Brasil pode se tornar um fornecedor chave de minerais estratégicos para o futuro da economia global, impulsionando sua própria economia e gerando riqueza.
Propostas Concretas para o Governo e o Setor
O estudo “Destravando o Potencial da Mineração no Brasil” apresenta um conjunto de propostas concretas que a Vale pretende entregar aos candidatos à Presidência da República em 2026. Entre as medidas defendidas estão:
- Padronização e agilização dos processos de licenciamento ambiental: Reduzir a burocracia e os prazos, garantindo, contudo, o rigor técnico e ambiental.
- Fortalecimento de órgãos reguladores e ambientais: Assegurar que as instituições tenham capacidade técnica e recursos para fiscalizar e regular o setor de forma eficaz.
- Incentivos à transformação mineral: Estimular o processamento e a agregação de valor aos minérios no próprio Brasil, em vez de exportá-los apenas como matéria-prima.
- Melhorias na infraestrutura e no fornecimento de energia: Investir em logística (ferrovias, portos) e em fontes de energia limpa e acessíveis para suportar a expansão da mineração.
- Implementação de uma política nacional para minerais críticos e estratégicos: Definir diretrizes claras e estratégias de longo prazo para a exploração e o aproveitamento desses minerais.
A mineradora estima que, com a implementação dessas iniciativas, o setor de mineração brasileiro poderá gerar R$ 1,3 trilhão em arrecadação entre 2026 e 2035, um aumento expressivo em relação aos cerca de R$ 743 bilhões arrecadados na década anterior. Além disso, o número de empregos diretos, indiretos e induzidos poderia saltar para até 5,3 milhões no mesmo período.
BNDES e o Interesse Crescente em Mineração
Aloizio Mercadante, presidente do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), presente no evento, reforçou a importância da parceria entre o Estado e o setor privado para acelerar investimentos na mineração. Ele destacou o crescente interesse global e nacional no segmento, impulsionado pela demanda por minerais críticos. Mercadante expressou confiança na possibilidade de conciliar a proteção ambiental com a exploração mineral, citando a própria Vale como um exemplo de empresa que busca esse equilíbrio.
A declaração de Mercadante sinaliza que instituições financeiras de fomento como o BNDES estão abertas a apoiar projetos de mineração que apresentem planos de sustentabilidade robustos e que contribuam para o desenvolvimento econômico e social do país. O banco tem um papel crucial em financiar projetos de infraestrutura e de grande porte, o que se alinha com a proposta da Vale de desenvolver mega projetos que demandam altos volumes de capital e expertise técnica. O apoio do BNDES seria fundamental para viabilizar a agenda proposta pela mineradora.
O Equilíbrio entre Exploração Mineral e Conservação Ambiental
Um dos pontos centrais abordados por Gustavo Pimenta e reforçado por Aloizio Mercadante é a necessidade de garantir que o desenvolvimento da mineração ocorra de forma responsável e sustentável. Após os trágicos incidentes em Minas Gerais, a preocupação com o impacto ambiental e social dos projetos de mineração se intensificou, tanto por parte da sociedade quanto por parte das empresas e órgãos reguladores.
Pimenta afirmou que a Vale tem avançado nesse aspecto ao longo dos últimos anos, aprendendo com os erros passados. Ele enfatizou que os futuros mega projetos serão desenvolvidos “com todo rigor ambiental necessário”. Essa garantia é crucial para reconquistar a confiança da sociedade e assegurar que o crescimento econômico proporcionado pela mineração não ocorra à custa da degradação ambiental ou de riscos à vida humana. A busca por soluções inovadoras em gestão de resíduos, monitoramento ambiental e segurança de barragens será fundamental para o sucesso dessa nova fase da mineração brasileira.