Crise no STF impulsiona protesto na Paulista com foco em Alexandre de Moraes
Uma manifestação convocada pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na Avenida Paulista, em São Paulo, no feriado de 7 de Setembro, ganhou contornos de um grande protesto contra o ministro Alexandre de Moraes e o Supremo Tribunal Federal (STF). O evento, que reuniu cerca de 28,5 mil pessoas em seu auge, segundo estimativas, foi fortemente influenciado pela recente divulgação de mensagens trocadas entre o banqueiro Daniel Vorcaro e o ministro do STF, Alexandre de Moraes.
A polêmica envolvendo as mensagens, que tratavam de operações investigativas e de um contrato milionário entre o Banco Master e o escritório da esposa de Moraes, Viviane Barci de Moraes, abriu uma crise sem precedentes na Corte. A situação levou o ministro André Mendonça, do STF, a pedir a inclusão de Moraes em um inquérito – posteriormente retirado pelo presidente do STF, Edson Fachin. Esse cenário acirrou os ânimos de apoiadores do bolsonarismo, que viram na manifestação uma oportunidade para expressar descontentamento com o judiciário.
O clima na Avenida Paulista refletiu a tensão política e jurídica dos últimos dias. Lideranças do bolsonarismo, incluindo o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e o pastor Silas Malafaia, discursaram no palco montado em frente ao Museu de Arte de São Paulo (Masp), criticando Moraes e o STF, e demonstrando apoio a Mendonça. A origem dessas informações é baseada em relatos de participantes e na cobertura jornalística do evento.
A Crise no STF como Catalisador da Manifestação
A fala do empresário paulista Luciano Romão, de 55 anos, resume o sentimento que impulsionou muitos a comparecerem ao ato: “Eu já estava propenso a vir, mas essa última semana me fez estar aqui na Avenida Paulista hoje”. Romão referia-se diretamente à divulgação, em 1º de setembro, de mensagens extraídas do celular do banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. As conversas revelaram interações de Vorcaro com um contato salvo como Alexandre de Moraes, discutindo detalhes sobre a Operação Compliance Zero, que investiga fraudes no Banco Master, e sobre um contrato de R$ 131 milhões firmado entre a instituição e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro.
Essa revelação desencadeou uma crise interna no STF, com o ministro André Mendonça solicitando a inclusão de Moraes no inquérito das fake news, uma medida que gerou forte repercussão. A decisão de Mendonça foi vista por muitos como um ato de coragem em face de um colega poderoso, enquanto outros a interpretaram como uma tentativa de atingir o ministro. Romão expressou essa dualidade ao afirmar: “Quando você vê o André Mendonça, lutando pelo que é certo, tentar ser tirado como o errado, e o outro se fazer de vítima da vez depois de assinar contrato com Vorcaro, aí você olha e realmente perde o sentido”.
A crise no STF, portanto, serviu como um poderoso catalisador para a manifestação convocada por Flávio Bolsonaro. A pauta “Fora Moraes”, que já era presente em atos do bolsonarismo devido ao papel do ministro em investigações contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, ganhou uma centralidade ainda maior após a divulgação das mensagens, transformando o evento em um palco de protesto contra o que os manifestantes consideram abusos do judiciário.
Ato na Paulista: Números e Símbolos de um Protesto Político
A Avenida Paulista, coração financeiro e cultural de São Paulo, foi o palco escolhido para a manifestação. A concentração de apoiadores de Flávio Bolsonaro começou no início da tarde, com diversas lideranças bolsonaristas discursando contra Moraes e o STF. Entre os presentes notáveis estavam o prefeito da capital, Ricardo Nunes (MDB), o governador do estado, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e o pastor Silas Malafaia, figuras proeminentes do cenário político conservador.
A estimativa de público para o evento foi de 28,5 mil pessoas em seu pico, de acordo com um levantamento realizado pelo Monitor do Debate Político – USP/Cebrap, em parceria com a organização More in Common. Este método utiliza drones para capturar imagens aéreas da multidão, com um software de inteligência artificial analisando as fotos para identificar e contar as cabeças das pessoas. Para fins de comparação, o mesmo monitor estimou 42,2 mil pessoas na Paulista em 7 de setembro de 2025 e 45,4 mil em 2024, indicando que o ato de 2026 foi considerado menor em comparação com anos anteriores.
As ruas foram tomadas pelo verde e amarelo, com manifestantes exibindo adesivos de candidatos da direita e ouvindo discursos inflamados. Bandeiras dos Estados Unidos e de Israel, símbolos recorrentes em atos da direita, também eram visíveis, assim como um boneco inflável gigante do ex-presidente americano Donald Trump. A atmosfera era de forte identidade política, com santinhos, bandeiras e jingles de diversos gêneros musicais embalando o evento, que foi organizado pelo PL, partido de Flávio Bolsonaro, com o lema “Vamos juntos resgatar o Brasil”.
Apoio a André Mendonça e Críticas a Alexandre de Moraes
A crise interna no STF e a figura do ministro André Mendonça ganharam destaque no evento. Mendonça, que solicitou a investigação contra Moraes, foi visto por muitos como um contraponto à atuação do colega. A aposentada Vera Saraiva, de 64 anos, expressou sua indignação com as conversas de Moraes e Vorcaro, classificando-as como um “escândalo sem precedentes”.
“Isso aqui não é casa da Maria Joana que eles fazem o que eles querem. Eles são o Supremo, eles têm que seguir a Constituição e não estão seguindo. Tem que ser feita uma limpa no STF, porque eles se acham os donos do Brasil”, declarou Vera, defendendo uma intervenção na Corte. Sobre a relação de Flávio Bolsonaro com Vorcaro, que teria pedido milhões para um filme sobre Jair Bolsonaro, Vera minimizou a questão, argumentando que patrocínios são comuns e que Bolsonaro não utilizou a Lei Rouanet, diferentemente de outros.
O servidor público Fábio Amaral, 51 anos, acreditava que o erro de Flávio Bolsonaro foi “não falar logo” sobre sua relação com Vorcaro. No entanto, ele também defendeu que a corrupção está no governo atual, de Lula. Amaral reconheceu que a associação com Vorcaro pode ter afetado a popularidade de Flávio, mas a pauta “contra Moraes” o motivou a participar. Ele também expressou preferência por Tarcísio de Freitas, mas aceitou a escolha de Flávio como sucessor de Bolsonaro.
A Relação Flávio Bolsonaro-Vorcaro e o Cenário Eleitoral
A relação entre Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro tem sido um ponto de atenção, especialmente após a divulgação de mensagens que indicam pedidos de financiamento para o filme “Dark Horse”, que retrata a vida de Jair Bolsonaro. Embora os manifestantes presentes na Paulista, como Vera Saraiva, tenham minimizado a situação, o servidor público Fábio Amaral apontou a “não comunicação” de Flávio como um erro. Contudo, Amaral rapidamente transferiu o foco para o governo atual, declarando que a “corrupção é quem está no governo”.
O cenário eleitoral também foi um pano de fundo importante para a manifestação. Flávio Bolsonaro e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva estão em um páreo acirrado nas pesquisas de intenção de voto para o segundo turno, com o candidato do PL demonstrando uma recuperação nas últimas semanas. A necessidade de “fazer um Senado forte” foi destacada por Amaral como crucial para “dar um freio no STF”. A crítica ao “inquérito do fim do mundo das fake news” por parte de Moraes, que segundo Amaral “coloca tudo o que ele quer lá”, reflete o sentimento de muitos manifestantes sobre a atuação do ministro.
A polarização política e a busca por apoio em meio a um pleito acirrado parecem ter influenciado a estratégia de Flávio Bolsonaro e seus aliados, que buscaram capitalizar a crise no STF para mobilizar sua base eleitoral e reforçar o discurso de oposição ao judiciário e ao governo federal.
A Escalada da Crise: Moraes Pede Investigação Contra Mendonça
A tensão entre os ministros do STF atingiu um novo patamar na noite de quinta-feira (3 de setembro), quando Alexandre de Moraes encaminhou ao presidente da Corte, ministro Edson Fachin, um pedido de investigação contra André Mendonça. Esta ação ocorreu apenas dois dias após Mendonça ter solicitado a Fachin que levasse a plenário um relatório da Polícia Federal que indicava possíveis irregularidades na relação de Moraes com Daniel Vorcaro. A escalada do conflito demonstra a profundidade da crise institucional que se instalou no Supremo.
Na petição, Moraes acusa Mendonça de, “em tese”, ter cometido improbidade administrativa, crimes de responsabilidade e abuso de autoridade. Segundo Moraes, Mendonça teria quebrado a “imparcialidade judicial” e agido com “favorecimento a determinados grupos políticos” ao atuar como relator de casos como o escândalo do INSS (“Operação Sem Desconto”) e o do Banco Master (“Operação Compliance Zero”).
Em resposta à escalada da crise, Fachin determinou um prazo de cinco dias para que os ministros Moraes e Mendonça, além do Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues – todos citados nos diálogos de Vorcaro –, se manifestem sobre a situação. Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil avaliam que o confronto entre os ministros abala a imagem da Corte perante a sociedade e representa uma crise sem precedentes, sem uma saída previsível, onde “ninguém está certo”. A cientista política Grazielle Albuquerque descreveu a situação como um momento em que “o tribunal parece estar implodindo”.
Discursos Inflamados: “Fora Lula e Fora Moraes”
No palco montado em frente ao Masp, o tom dos discursos foi de forte oposição. Candidatos do PL, deputados de direita e apoiadores de Flávio Bolsonaro se revezaram no microfone, pedindo o impeachment de Moraes, demonstrando apoio a Mendonça e criticando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O deputado Alfredo Gaspar (PL-AL), candidato a vice-presidente na chapa com Flávio Bolsonaro, declarou a união entre Lula e Moraes: “Não existe Lula sem Alexandre de Moraes e não existe Alexandre de Moraes sem Lula”.
Flávio Bolsonaro, ao discursar por volta das 16h20, ecoou o sentimento da multidão ao pedir “fora Lula e fora Moraes”. Ele atribuiu a Lula a culpa pelo “caos moral” e pelo sofrimento do Brasil, afirmando que “quem vota em Lula vota em Alexandre de Moraes”. O senador prometeu que, se eleito, indicará cinco novos ministros para o STF, antecipando a queda de Moraes e buscando renovar a Corte com nomes alinhados aos seus princípios: “Eu vou indicar mais 5 ministros pro STF por que Alexandre vai cair”.
Flávio Bolsonaro detalhou seu plano para o STF, prometendo indicar “homens e mulheres que sejam contra o aborto, contra as drogas, contra a ideologia de gênero nas escolas, que respeitem a Constituição, que não persigam adversários políticos e que retomem a credibilidade do Supremo”. O governador Tarcísio de Freitas reforçou a ideia de que “ninguém, absolutamente ninguém, está acima da lei e da Constituição”, em uma fala que ecoou a importância do Estado de Direito. O pastor Silas Malafaia, por sua vez, rotulou Moraes como “ditador” e solicitou seu afastamento do STF.
O Futuro da Corte e o Impacto no Cenário Político
A crise institucional no STF, evidenciada pela disputa entre os ministros Moraes e Mendonça, levanta sérias questões sobre o futuro da Corte e seu papel na democracia brasileira. A divergência pública entre membros do Supremo, em meio a investigações e pedidos de investigação, mina a confiança da sociedade nas instituições. A percepção de que a Corte está dividida e em conflito interno pode ter repercussões significativas no cenário político, especialmente em um ano eleitoral.
A manifestação na Avenida Paulista, com sua forte carga de protesto contra o STF e a figura de Alexandre de Moraes, reflete um sentimento de insatisfação de parte da população com a atuação do judiciário. O discurso de Flávio Bolsonaro, que promete uma renovação da Corte com ministros alinhados a seus valores, busca capitalizar essa insatisfação para angariar votos e fortalecer sua posição política.
O confronto entre os poderes, a polarização política e a busca por respostas para as crises institucionais indicam um período de grande instabilidade. O desfecho da crise no STF e o impacto das eleições futuras na composição da Corte serão determinantes para o futuro do equilíbrio entre os poderes no Brasil. A sociedade observa atentamente, buscando clareza e respostas em meio a um cenário complexo e de profundas divisões.